Solenidade de Todos os Santos

Evangelho: Mateus 5,1-12a – As Bem-aventuranças

Irmãos e irmãs, hoje celebramos a Solenidade de Todos os Santos. É uma festa muito bonita, porque nos recorda que a santidade não é privilégio de alguns escolhidos, mas uma vocação oferecida por Deus a todos nós.
Quando olhamos para os santos, não devemos enxergar pessoas que nasceram perfeitas, que nunca erraram ou que viveram longe dos problemas do mundo. Os santos foram homens e mulheres como nós, com limitações, lutas, dificuldades e tentações. A diferença é que permitiram que Deus conduzisse suas vidas e transformasse suas escolhas.

Um pouco da história da canonização
Nos primeiros séculos da Igreja, especialmente durante o primeiro milênio, o reconhecimento da santidade acontecia de maneira muito diferente da que conhecemos hoje. Os primeiros cristãos reconheciam como santos, sobretudo, aqueles que haviam dado a vida por Cristo, os mártires. O testemunho de sua fé era acolhido pela comunidade, que celebrava sua memória, visitava seus túmulos e transmitia suas histórias.
Com o passar do tempo, também começaram a ser venerados homens e mulheres que, sem morrer martirizados, testemunharam uma vida extraordinária de fé, caridade e fidelidade ao Evangelho. Eram os confessores da fé.
Inicialmente, esse reconhecimento acontecia principalmente nas comunidades locais, com a participação dos bispos. Aos poucos, a Igreja foi organizando critérios e procedimentos mais rigorosos. A partir da Idade Média, especialmente entre os séculos X e XII, cresceu a participação da autoridade papal. No século XIII, consolidou-se a reserva ao Papa do reconhecimento oficial e universal da santidade, processo que foi sendo aperfeiçoado ao longo dos séculos.
Hoje, a canonização é um processo cuidadoso, que investiga a vida, as virtudes, a fama de santidade e, quando exigidos, os milagres atribuídos à intercessão daquela pessoa. O Papa, em nome da Igreja, proclama oficialmente que aquela pessoa pode ser venerada universalmente como santa.
Mas existe algo muito importante: a Igreja não fabrica santos; ela reconhece aquilo que Deus realizou na vida de seus filhos e filhas.

A santidade é uma vocação para todos
O Evangelho de hoje nos apresenta as Bem-aventuranças. Jesus sobe à montanha, senta-se e começa a ensinar. É como se estivesse apresentando o retrato de uma pessoa santa, o caminho daqueles que desejam viver no Reino de Deus.
E aqui precisamos compreender algo fundamental: Jesus não diz que serão felizes somente os perfeitos, os poderosos, os ricos ou aqueles que nunca enfrentam dificuldades. Ele proclama felizes os pobres em espírito, os mansos, os misericordiosos, os que promovem a paz, os que têm fome e sede de justiça e os perseguidos por causa da fidelidade ao Evangelho.
As Bem-aventuranças são o caminho da santidade!
Ser santo não significa fugir do mundo, mas viver no mundo sem perder os valores do Evangelho.
Não significa nunca cair, mas ter a humildade de levantar, recomeçar e permitir que Deus continue trabalhando em nós.
O Concílio Vaticano II, na Constituição Lumen Gentium, recorda que todos os fiéis, independentemente de sua condição de vida, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade.
Portanto, a santidade não é vocação somente dos padres, bispos, religiosos e religiosas. É também vocação dos pais e mães de família, dos jovens, das crianças, dos trabalhadores, dos idosos, dos profissionais e de todos aqueles que desejam seguir Jesus.

Mas como viver a santidade no século XXI?
Talvez alguém pergunte: Padre, como ser santo em um mundo tão complicado, marcado por tantas contradições?
A resposta está nas próprias Bem-aventuranças. O santo de hoje precisa dar testemunho de Deus nas realidades concretas da vida.

  • Ser pobre em espírito: em uma sociedade que valoriza tanto o dinheiro, o poder e as aparências, o santo sabe que sua maior riqueza é Deus. Não vende seus princípios para conquistar vantagens.
  • Ser misericordioso: em um mundo que julga, condena e cancela pessoas, o santo sabe acolher, perdoar, compreender e oferecer oportunidades de recomeço.
  • Ter fome e sede de justiça: em uma sociedade marcada pela corrupção, pela desigualdade e pela indiferença, o santo não se cala diante do sofrimento do próximo. Defende a dignidade humana e não negocia a verdade.
  • Ser puro de coração: em uma cultura que banaliza o amor, o corpo e os relacionamentos, o santo vive a fidelidade, a honestidade, o respeito e a responsabilidade afetiva.
  • Ser promotor da paz: em tempos de agressividade, intolerância, divisões e violência, o santo não alimenta fofocas, intrigas e discórdias. Constrói pontes, reconcilia pessoas e promove a fraternidade.
  • Ser fiel a Cristo nas dificuldades: em um mundo que muitas vezes ridiculariza a fé e os valores cristãos, o santo não tem vergonha de testemunhar sua identidade cristã. Não abandona o Evangelho para agradar às pessoas.


E eu acrescentaria um desafio muito próprio do nosso tempo: ser santo também no ambiente digital! Como usamos as redes sociais? O que compartilhamos? Como tratamos as pessoas?
Nossas palavras espalham esperança ou alimentam o ódio? Nossa presença na internet revela Cristo ou contradiz aquilo que professamos na Igreja?
Não adianta colocar uma imagem de santo no perfil e, ao mesmo tempo, utilizar as redes sociais para destruir a reputação de alguém. A santidade precisa aparecer também naquilo que escrevemos, publicamos e compartilhamos.

Conclusão
Meus irmãos e minhas irmãs, a festa de Todos os Santos não é apenas uma recordação daqueles que já estão na glória de Deus. É também um convite para nós, que ainda caminhamos neste mundo.
Os santos nos mostram que é possível viver o Evangelho em qualquer época, em qualquer profissão, em qualquer estado de vida e em qualquer realidade.
Não precisamos fazer coisas extraordinárias para sermos santos. Precisamos fazer as coisas ordinárias de cada dia com um amor extraordinário: amar nossa família, cuidar dos filhos, respeitar o próximo, trabalhar honestamente, perdoar, repartir o pão, visitar quem sofre e permanecer fiéis a Jesus.
A santidade começa dentro de casa, manifesta-se no trabalho, aparece nos relacionamentos e se confirma nas pequenas escolhas de cada dia.
Deus não está procurando pessoas perfeitas; está procurando corações disponíveis para serem transformados pelo seu amor.
Por isso, termino deixando uma pergunta para nossa reflexão:
Se alguém observasse minha maneira de viver, de falar, de tratar as pessoas e de fazer minhas escolhas, conseguiria reconhecer em mim alguma coisa de Jesus?
Que Maria, Rainha de Todos os Santos, nos ajude a compreender que a santidade não é um privilégio de poucos, mas o destino para o qual Deus nos chama a todos. Amém!
Nota histórica para sua preparação: vale preservar uma distinção importante ao apresentar a história. Em 993, o Papa João XV realizou a canonização de Santo Ulrico de Augsburgo, considerada a primeira canonização papal formalmente documentada. Entretanto, durante boa parte do primeiro milênio, o reconhecimento dos santos acontecia predominantemente nas Igrejas locais, com a participação dos bispos e das comunidades. Foi somente com o Papa Gregório IX, em 1234, que se consolidou juridicamente a reserva das canonizações à autoridade pontifícia.
Portanto, não foi uma mudança repentina, mas um processo histórico gradual.

Uma frase que pode marcar a celebração:
“Os santos não foram pessoas que viveram sem dificuldades; foram pessoas que, mesmo diante das dificuldades do seu tempo, não permitiram que o mundo apagasse nelas a presença de Deus.”
Com Carinho Padre Hércules

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