Permanecer no Coração de Jesus, discernir a vocação e servir
Autora: Irmã Helena Hessel Gaeta
Retiro: “Permanecei em mim: um caminho de intimidade com Cristo rumo à santidade”
A vida espiritual precisa ser cuidada. Assim como diariamente alimentamos o corpo e sabemos que uma alimentação ruim acaba trazendo consequências para nossa saúde, também precisamos prestar atenção àquilo com que alimentamos nossa mente e, sobretudo, nosso espírito.
Se não cuidamos da vida interior, lentamente começamos a nos afastar da fonte. Na imagem utilizada por Jesus no Evangelho, o ramo que se distancia da videira perde a seiva, seca e deixa de produzir frutos. Por isso, a palavra que atravessa todo este retiro é profundamente significativa:
“Permanecei em mim” (Jo 15,4).
Na Espiritualidade do Sagrado Coração de Jesus, permanecer em Cristo significa permanecer junto ao seu Coração, deixar-se amar por Ele, permitir que nossos sentimentos, pensamentos, desejos e decisões sejam pouco a pouco configurados aos sentimentos do próprio Jesus.
Talvez tenhamos chegado ao retiro trazendo alguns “galhos secos” de nossa história: cansaços, decepções, feridas, pecados, dificuldades na oração, crises no serviço ou experiências que já não produziam os frutos esperados. Mas Cristo não rejeita esses galhos. Ele se aproxima, cuida, poda, purifica e devolve vida.
O importante é não interromper o caminho.
A vontade, a disciplina e a perseverança são necessárias para que permaneçamos em Deus. A vida espiritual não pode depender apenas de emoções ou de momentos de entusiasmo. Uma experiência forte de retiro é preciosa, mas ela precisa se transformar em decisão.
Quando compreendemos alguma coisa nova sobre nossa relação com Deus, esse conhecimento também nos traz uma responsabilidade.
Consciência espiritual gera responsabilidade espiritual.
Por isso, o tema desta reflexão nos coloca diante de uma pergunta essencial:
Qual é a vida que Deus sonhou para mim?
Não estamos no mundo por acaso.
Nossa existência não é um acidente. Deus nos conhece, nos ama e nos chama pessoalmente. Há um projeto de amor que antecede nossas próprias escolhas e nossos próprios projetos.
Isso não significa imaginar que Deus escreveu uma espécie de roteiro rígido no qual não temos liberdade. Ao contrário. Deus nos criou livres e deseja que nossa liberdade encontre sua plenitude exatamente no encontro com sua vontade de amor.
O problema é que muitas vezes construímos nossos próprios projetos e depois pedimos a Deus que simplesmente os confirme.
A vida espiritual amadurece quando acontece uma mudança interior:
deixo de perguntar apenas o que eu quero para começar a perguntar o que Deus deseja realizar em mim.
Essa mudança é profundamente própria da Espiritualidade do Sagrado Coração.
Colocar-se diante do Coração de Jesus é permitir que seus desejos comecem a purificar os nossos desejos. É aprender a dizer:
“Jesus, fazei o meu coração semelhante ao vosso.”
Essa oração não pede apenas sentimentos piedosos. Ela pede transformação.
Jesus deseja transformar nossa maneira de amar, escolher, trabalhar, servir, perdoar e relacionar-nos com as pessoas.
Deus me viu
A experiência de Natanael nos ajuda a compreender esse caminho.
Natanael carregava suas expectativas, dúvidas e projetos. Entretanto, quando encontra Jesus, ouve uma palavra surpreendente:
“Antes que Filipe te chamasse, quando estavas debaixo da figueira, eu te vi” (cf. Jo 1,48).
Talvez muitas vezes também tenhamos rezado e imaginado que Deus não nos escutou.
Rezamos diante do sacrário. Rezamos em casa. Pedimos alguma coisa com insistência. Passa um dia, passam meses, talvez anos, e começamos a pensar:
“Deus não me ouviu.”
Mas Jesus continua dizendo:
“Eu te vi.”
Ele viu aquilo que ninguém viu. Viu nossa oração. Viu nossas lágrimas. Viu nossos esforços. Viu nossas quedas. Viu aquilo que vivíamos quando chegamos a este retiro.
O tempo de Deus não é simplesmente o nosso tempo. Muitas vezes Ele já está realizando uma obra e ainda não conseguimos percebê-la.
Deus conhece nosso grau de maturidade espiritual. Sabe até onde conseguimos compreender. Por isso, vai conduzindo pacientemente nossa história.
Na Espiritualidade do Sagrado Coração, aprendemos exatamente essa confiança: o Coração de Cristo conhece nosso coração por inteiro.
Não precisamos esconder nossas fragilidades diante dele.
“Eu sou filho amado de Deus”
A pedra entregue durante o retiro tornou-se um pequeno sinal dessa verdade.
Um papel pode ser destruído rapidamente. A pedra, porém, evoca firmeza, estabilidade, fundamento.
Ela deve recordar uma convicção essencial:
“Eu sou filho amado de Deus.”
“Eu sou filha amada de Deus.”
Guardá-la em algum lugar visível pode ajudar a recordar aquilo que foi experimentado nestes dias.
Deus me conhece. Deus me ama. Deus me chama pelo nome.
A identidade cristã começa aqui.
Antes de sermos agentes de pastoral, catequistas, ministros, coordenadores, membros de uma comunidade ou responsáveis por determinado serviço, somos filhos amados de Deus.
Essa ordem é fundamental.
Quando esquecemos que somos filhos e passamos a viver apenas como trabalhadores religiosos, o serviço começa a secar.
Na espiritualidade do Sagrado Coração, o serviço não nasce primeiramente da obrigação, mas da experiência de sermos amados.
Primeiro somos acolhidos no Coração de Cristo; depois somos enviados.
Deus nos chama à santidade
Deus chama todos nós à santidade. Mas também aqui existe um risco.
Podemos desejar uma santidade construída segundo nossa própria medida, nossos gostos ou nossa imagem ideal.
É possível até querer ser santo segundo aquilo que eu imagino, sem perguntar seriamente:
“Senhor, qual é a santidade que desejas realizar em mim?”
A santidade cristã não consiste em fabricar uma versão ideal de nós mesmos.
Santidade é permitir que Cristo viva cada vez mais em nós.
Por isso, precisamos retirar o próprio “eu” do centro.
Enquanto tudo gira ao redor do que eu quero, do que eu penso, daquilo que me agrada ou da imagem que desejo transmitir, ainda não entramos plenamente na lógica do Evangelho.
O centro precisa ser Deus.
E, quando Deus ocupa o centro, as demais coisas começam a encontrar seu lugar.
Um projeto de vida espiritual
Para acolher a vida que Deus sonha para nós, precisamos de um caminho concreto.
Temos planejamento para tantas coisas. Planejamos compromissos familiares. Planejamos o trabalho. Planejamos atividades da paróquia. Organizamos horários, reuniões, eventos e responsabilidades.
Por que deixaríamos justamente a vida espiritual entregue ao improviso?
Precisamos de um verdadeiro projeto de vida espiritual.
Não se trata de construir uma agenda sufocante ou de transformar a fé numa sequência rígida de obrigações.
Trata-se de decidir concretamente como permaneceremos em Cristo depois do retiro.
Quando vou rezar? Como vou alimentar-me da Palavra? Como será minha participação na Eucaristia? Como cuidarei do Sacramento da Reconciliação? Onde encontrarei momentos de silêncio? Como farei meu exame de consciência? Como cuidarei das minhas leituras espirituais? Como permanecerei próximo do Coração de Jesus?
Sem alguma disciplina, até as melhores intenções acabam se perdendo.
A vocação que Deus sonhou
Cada pessoa possui uma missão.
Pelo Batismo, fomos incorporados a Cristo e enviados.
Ninguém está numa comunidade simplesmente para ocupar espaço.
Deus pode realizar alguma coisa naquele lugar através de cada um.
Existe uma palavra, uma presença, um cuidado ou um serviço que talvez somente aquela pessoa possa oferecer daquele modo concreto.
Por isso precisamos descobrir nossa missão.
E só conseguiremos discerni-la permanecendo próximos de Deus.
Talvez determinados sonhos precisem ser modificados.
Às vezes dizemos: “Eu quero isto.” Mas Deus conhece aquilo que realmente pode preencher nosso coração.
Sua vontade não é inimiga da nossa felicidade. Pelo contrário.
A vocação que Deus deseja para nós é precisamente o caminho no qual nossa vida encontra sua verdade mais profunda.
Isso não significa que tudo será fácil.
Quando descobrimos nosso caminho, as dificuldades continuam. Mas começamos a caminhar com outra segurança: não estamos sozinhos.
Permita-se ser curado
Nesse caminho, Jesus também deseja curar nossas feridas.
Uma ovelha ferida não caminha bem.
Algumas feridas precisam de tempo, cuidado, oração, acompanhamento e graça.
Mas não podemos transformar nossas feridas numa identidade.
Existe diferença entre reconhecer uma ferida e cultivá-la continuamente.
Às vezes tocamos sempre no mesmo sofrimento, voltamos repetidamente às mesmas dores e, sem perceber, impedimos o processo de cura.
Por isso é importante ouvir:
Permita-se ser curado por Cristo.
O Sagrado Coração de Jesus é também o Coração ferido.
No lado aberto de Cristo encontramos um Deus que conhece a dor humana por dentro.
Mas suas chagas não são sinais de derrota. São chagas gloriosas. O Coração transpassado torna-se fonte de vida.
Isso nos ensina algo essencial: nossas feridas, colocadas no Coração de Cristo, podem também tornar-se lugares de graça, maturidade, compaixão e serviço.
A graça não exige perfeição
Não precisamos estar completamente prontos para que Deus comece a agir.
A graça não exige uma perfeição anterior.
Se fosse necessário ser perfeito para receber a graça, ninguém jamais poderia recebê-la.
Deus começa precisamente conosco como somos.
O que Ele pede é disponibilidade.
Um coração que possa dizer: “Senhor, eu quero ser teu.”
Depois, sua graça irá trabalhando. Vai podando. Vai iluminando. Vai corrigindo. Vai curando. Vai transformando.
Por isso, a santidade é sempre graça acolhida e correspondida.
Para Deus, sempre o melhor
Essa consciência também transforma nosso modo de servir.
Existe uma expressão que precisa tornar-se muito concreta:
Para Deus, sempre o melhor.
Não podemos oferecer ao Senhor simplesmente o resto.
O resto do tempo. O resto das energias. O resto da atenção. O resto do coração.
Quando Deus nos confia uma missão, ela merece responsabilidade.
Isso não significa que precisamos permanecer indefinidamente em todos os serviços. Também é necessário discernir.
Se realizamos determinada atividade somente por obrigação, pressão ou ressentimento, podemos começar a fazê-la mal, com irritação, desânimo ou até machucando outras pessoas.
O serviço cristão precisa nascer de uma resposta livre.
Quando digo livremente “sim” a Deus, esse sim gera responsabilidade.
O sim de Maria
Maria é o grande modelo dessa resposta.
Quando recebeu o anúncio de que seria Mãe do Salvador, não conhecia tudo aquilo que aconteceria.
Não sabia todos os detalhes. Não conhecia antecipadamente Belém, a fuga para o Egito, Nazaré, Caná, o Calvário.
Mas confiou.
Seu “sim” não nasceu do domínio do futuro. Nasceu da confiança em Deus.
Assim também conosco.
Ao terminar este retiro, não sabemos tudo aquilo que virá.
Mas podemos dizer: “Senhor, se Tu me chamas, eu confio em Ti.”
Na espiritualidade do Sagrado Coração, esse abandono confiante é central.
Descansar no Coração de Jesus não significa fugir da realidade, mas atravessá-la sabendo em quem colocamos nossa confiança.
Levantar-se para servir
O Evangelho apresenta outra imagem muito concreta na cura da sogra de Pedro.
Ela estava doente. Jesus se aproxima, toca-a e a cura.
E imediatamente o Evangelho diz: “Ela se levantou e começou a servi-los” (cf. Mc 1,31).
Ela foi curada e colocou sua vida a serviço.
Esse é um movimento profundamente cristão: ser tocado por Cristo, levantar-se e servir.
A graça recebida não termina em nós.
Quando Jesus cura alguma coisa em nossa vida, não devemos apenas permanecer contemplando aquilo que recebemos.
A verdadeira gratidão transforma-se em serviço.
Jesus mesmo viveu assim. Ele rezava. Retirava-se para estar com o Pai. Subia à montanha. Mas depois descia.
Descia para encontrar pessoas. Descia para ensinar. Descia para curar. Descia para acolher. Descia para servir.
Portanto, a espiritualidade cristã possui esse movimento: subir para Deus e descer para os irmãos.
Permanecer no Coração de Jesus para aprender a ter um coração disponível para os outros.
A santidade passa pelo serviço
A santidade nunca pode ser apenas intimista.
Quanto mais verdadeiramente nos aproximamos de Jesus, mais começamos a perceber as pessoas que estão ao nosso redor.
A santidade passa pelo serviço.
E o serviço torna-se diferente quando compreendemos: “Estou servindo a Jesus através do meu irmão.”
Sirvo Jesus na família. Sirvo Jesus na comunidade. Sirvo Jesus no pobre. Sirvo Jesus naquele que necessita de atenção. Sirvo Jesus através da missão que me foi confiada.
Na Espiritualidade do Sagrado Coração, isso é particularmente importante.
Contemplar o Coração de Cristo é contemplar um Coração inteiramente entregue.
Um Coração que ama sem reservar nada para si.
Por isso, quem deseja ter um coração semelhante ao de Jesus precisa aprender também a transformar amor em serviço.
Somos enviados onde Jesus deseja chegar
Jesus enviou os Doze. Enviou também os setenta e dois discípulos.
E o Evangelho diz que os enviou aos lugares onde Ele próprio deveria ir (cf. Lc 10,1).
Essa imagem deveria permanecer conosco.
Somos enviados aos lugares onde Jesus deseja chegar.
Talvez uma pessoa encontre Jesus através do nosso acolhimento. Talvez uma família encontre esperança por causa de nossa presença. Talvez alguém reencontre a Igreja através de nossa maneira de servir.
Somos as mãos de Cristo. Somos seus pés. Somos sua presença no cotidiano.
Deus não precisa de nós no sentido absoluto. Mas, em seu amor, quis contar conosco.
E isso dá uma dignidade enorme à missão.
Como estão os meus frutos?
Existe um critério importante para avaliar nosso caminho espiritual: os frutos.
Jesus diz: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16).
Podemos então perguntar: Como estão meus frutos?
Estou crescendo em caridade? Tenho me tornado mais paciente? Minha presença gera comunhão ou divisão? Estou aprendendo a perdoar? Minha família percebe em mim alguma transformação? Minha comunidade encontra em mim alguém mais disponível? Meu serviço aproxima as pessoas de Jesus? Tenho crescido em humildade? Estou menos centrado em mim?
Essas perguntas são muito importantes.
Os frutos não significam que não teremos dificuldades. Mas uma árvore viva começa a produzir sinais de vida.
O retiro termina, o caminho continua
Depois desses dias, chega o momento de retornar.
Voltaremos às nossas casas. À família. Ao trabalho. À paróquia. À pastoral. Aos problemas que ficaram esperando.
A vida concreta estará novamente diante de nós.
Por isso, a pergunta mais importante talvez seja: O que farei com aquilo que Deus realizou em mim neste retiro?
Todos nós ouvimos, de alguma maneira, o convite de Jesus: “Vinde e vede.”
Viemos. Vimos. Experimentamos. Rezamos. Fomos tocados.
Agora começa outra etapa.
A experiência precisa tornar-se perseverança. A perseverança precisa tornar-se vida. A vida precisa tornar-se missão. E a missão precisa produzir frutos.
Por isso, guardemos algumas certezas:
Eu sou filho amado de Deus. Ele me conhece pelo nome. Jesus me viu. Ele conhece minhas feridas. Ele deseja me curar. Ele me chama à santidade. Ele me confia uma missão. Ele me envia.
Mas existe uma condição essencial: não posso esquecer de onde vem a minha vida.
O ramo somente produz fruto se permanecer unido à videira.
Também nós somente produziremos frutos verdadeiramente cristãos se permanecermos unidos a Jesus.
E, para nós que caminhamos sob a espiritualidade do Sagrado Coração, isso ganha uma expressão ainda mais profunda: permanecer no Coração de Jesus.
Ali aprenderemos quem somos. Ali descobriremos nossa vocação. Ali nossas feridas poderão ser curadas. Ali nossos desejos serão purificados. Ali encontraremos força para servir. Ali aprenderemos a amar.
E, pouco a pouco, poderemos compreender a vida que Deus sonhou para cada um de nós.
Que, depois deste retiro, nossa oração possa ser simples e verdadeira:
Jesus, manso e humilde de Coração, fazei o nosso coração semelhante ao vosso.
E que essa semelhança não fique somente nas palavras, mas apareça em nossos frutos, em nossas escolhas, na maneira de tratar as pessoas, na fidelidade à oração, no serviço e na missão.
Porque permanecer em Cristo é permanecer em seu amor. E quem permanece em seu amor aprende também a amar como Ele.
“Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós” (Jo 15,4).
